Giovanni Baglione, "Amor sacro e Amor profano" (1601)

Treaspasóir

tú imithe le seachtain
d’gháire fós mo thionlacan
ba mhian liom éalú

ó d’íomhá atá do mo leanúint
uair a eiríonn an ghrian
go luíonn sí arís

is níos deanaí fós
is mé ag glanadh suas
tar éis lá oibre

tú mar a bheadh néal carnach
ós mo chionn
tuigim go mbeidh sé amhlaidh

go dtiocfaidh tréigean do chomactais.

- Colette Nic Aodha

- Caravaggio, "Amor Vincit Omnia" (ca. 1601-02)

- Caravaggio, "Amor Vincit Omnia" (ca. 1601-02)

Emily and The Woods, "Doorstep"

Não O Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

- Manuel António Pina, in “Atropelamento e Fuga”

Bartolomeo Manfredi, "Il Castigo di Cupido" (ca. 1605-1610)

Nocturno

As oliveiras de além
Enchem o chão de perfume.
No campo sinto-me bem;
Gosto do lume.

Abres a mão — e uma pinha
rebenta em lúcidas unhas.
Ardes. Que amor que eu te tinha!
Tão grande, que nem supunhas.

A tarde na terra embebe
Os olhos com que me vias.
Dás-me o cabelo. Que sebe
De rosas frias!

Amor, vê a voz que chama:
Quer água ou lençóis de linho
Na palha da sua cama?

Em verso a noite adivinho.

- Vitorino Nemésio

Roberto Ferri, "Noli foras ire" (2013)

Roberto Ferri, "Noli foras ire" (2013)

Nereides

nahoileain:

illa atque <haud> alia viderunt luce marinas
mortales oculis nudato corpore Nymphas
nutricum tenus exstantes e gurgite cano.

- Catullus, LXIV (vv. 16-18)

image

Painting: Joaquín Sorolla, "Las Nereidas" (1886)

παιών τε γενοῦ τῆσδε μερίμνης,
ἣ νῦν τοτὲ μὲν κακόφρων τελέθει,
τοτὲ δ᾽ ἐκ θυσιῶν ἀγανὴ φαίνουσ᾽
ἐλπὶς ἀμύνει φροντίδ᾽ ἄπληστον
τῆς θυμοβόρου φρένα λύπης. (…)

ὀνειρόφαντοι δὲ πενθήμονες
πάρεισι δόξαι φέρου-
σαι χάριν ματαίαν.
μάταν γάρ, εὖτ᾽ ἂν ἐσθλά τις δοκῶν ὁρᾷ,
παραλλάξασα διὰ
χερῶν βέβακεν ὄψις οὐ μεθύστερον
πτεροῖς ὀπαδοῦσ᾽ ὕπνου κελεύθοις.

- Aeschylus, in "Agamemnon" 
(vv. 99-103; 420-426)

Rino Stefano Tagliafierro, "Beauty" (2014)

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

- Al Berto, in "O Livro dos Regressos"  / "O Medo" (1989)

agnes-cecile:

outside, mr. afterthought is completely immobile

agnes-cecile:

outside, mr. afterthought is completely immobile